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Estamos todos cansados?

  • Foto do escritor: Thamiris Lemgruberpsiq
    Thamiris Lemgruberpsiq
  • 26 de mai.
  • 2 min de leitura

Chega, enfim, o final do dia. O corpo pesa depois da rotina, a mente parece cheia demais e, nesse momento, a rede social surge quase como uma tentativa de desligar um pouco. Em poucos minutos de deslizar o feed, aparecem pessoas viajando, treinando, produzindo, estudando, empreendendo, saindo com amigos, cuidando da pele, lendo livros, organizando a rotina, meditando e aparentando estar emocionalmente equilibradas enquanto fazem tudo isso.

A sensação é de que todo mundo está vivendo bem. Muito motivado. Muito funcional. Enquanto isso, permanece um sentimento silencioso de esgotamento só para conseguir acompanhar o próprio dia.

O problema é que o cérebro humano não interpreta essas imagens como recortes. Ele interpreta como parâmetro. Aos poucos, cria-se a impressão de que descansar é preguiça, desacelerar é fracasso e não dar conta de tudo significa incompetência.

O filósofo Byung-Chul Han descreve esse fenômeno ao falar da “sociedade do desempenho”: um modelo em que a cobrança deixa de vir apenas de fora e passa a ser internalizada. Já não é necessário alguém exigir produtividade o tempo inteiro. A própria pessoa passa a se cobrar constantemente.

Todos, cansados, olhando para a tela do celular, pensando que poderíamos mais: aproveitar mais, render mais, produzir mais... Ser mais saudável, mais organizado, mais feliz sem nada nunca parecer suficiente.

As redes sociais potencializam essa lógica porque expõem versões editadas da vida. Não vemos o cansaço completo, as inseguranças, os conflitos, as frustrações ou os momentos de vazio que fazem parte da experiência humana. Vemos apenas aquilo que foi escolhido para ser mostrado.

O resultado, muitas vezes, aparece no consultório em forma de ansiedade, sensação de insuficiência, dificuldade de descansar, culpa por “não estar fazendo o bastante” e uma impressão persistente de estar atrasado na própria vida.

Nem todo cansaço significa um transtorno mental. Mas transformar exaustão em estado permanente também não deveria ser considerado normal.Talvez o sofrimento psíquico contemporâneo tenha relação justamente com isso: estamos tentando sustentar um nível de desempenho emocional, social e produtivo que simplesmente não é humano manter o tempo inteiro.

E, às vezes, viver assim o tempo todo vai lentamente afetando o dia a dia. O que antes era apenas cansaço começa a se transformar em exaustão constante. A energia diminui, tarefas simples parecem mais difíceis e a culpa vai crescendo silenciosamente — culpa por não render, por não conseguir acompanhar, por precisar descansar, por sentir que nunca está fazendo o suficiente.

Aos poucos, até momentos que deveriam trazer alívio passam a gerar cobrança. Descansar já não descansa. Existe sempre a sensação de que se deveria estar produzindo mais, melhorando mais ou aproveitando mais a vida.

Como psiquiatra, vejo com frequência pessoas que passaram tempo demais tentando “dar conta” enquanto o sofrimento emocional crescia silenciosamente no meio da rotina. Às vezes, uma consulta não muda tudo de imediato, mas pode ser o começo de um espaço de compreensão, cuidado e construção de formas mais saudáveis de viver.

 
 
 

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